ma trégua só fará com que pareçamos
fracos - declarou a Senhora Mor-mont.
- Que se danem os resgates, não devemos abdicar do
Regicida - gritou Rickard Karstark.
- Por que não fazer a paz? - perguntou Catelyn.
Os senhores olharam-na, mas foram os olhos de Robb
que sentiu, os dele, e apenas os dele.
- Senhora, eles assassinaram o senhor meu pai, seu esposo
- disse ele em tom sombrio. Desembainhou a espada e
pousou-a na mesa à sua frente, fazendo cintilar o aço
brilhante contra a madeira rústica. - Esta é a única paz
que eu tenho a dar aos Lannister.
Grande-Jon berrou a sua concordância, e outros homens
acrescentaram suas vozes, gritando, desembainhando
espadas e batendo na mesa com os punhos. Catelyn
esperou até que se calassem.
- Senhores - disse ela então -, Lorde Eddard era seu
suserano, mas eu partilhei sua cama e dei à luz os seus
filhos. Julgam que o amo menos que os senhores? - sua
voz quase se quebrou, mas Catelyn inspirou longamente
e sossegou. - Robb, se esta espada pudesse trazê-lo de
volta, eu nunca deixaria que a embainhasse até que Ned
estivesse de novo ao meu lado... Mas ele partiu, e uma
centena de Bosques dos Murmúrios não mudarão isso.
Ned partiu, tal como Daryn Hornwood, tal como os
valentes filhos de Lorde Karstark, tal como muitos
outros bons homens, e nenhum deles regressará para nós.
Precisaremos ainda de mais mortes?
- É uma mulher, senhora - estrondeou Grande-Jon com
sua voz grave, - As mulheres não compreendem estas
coisas.
- É o sexo gentil - disse Lorde Karstark, com rugas de
dor frescas no rosto. - Um homem tem necessidade de
vingança.
- Dê-me Cersei Lannister, Lorde Karstark, e verá quão
gentil uma mulher pode ser - respondeu Catelyn. - Eu
talvez não compreenda as táticas e a estratégia... mas
compreendo a futilidade. Partimos para a guerra quando
os exércitos Lannister assolavam as terras do rio, e Ned
era um prisioneiro, falsamente acusado de traição.
Lutamos para nos defender e para conquistar a liberdade
do meu senhor. Pois bem, uma parte está feita, e a outra,
para sempre além do nosso alcance. Farei luto por Nec!
até o fim dos meus dias, mas tenho de pensar nos vivos.
Quero as minhas filhas de volta, e a rainha ainda as tem.
Se tiver de trocar os nossos quatro Lannister pelas duas
Stark deles, chamarei a isso uma pechincha e darei
graças aos deuses. Quero-o a salvo, Robb, governando
em Winterfell do assento do seu pai. Quero que desfrute
sua vida, que beije uma moça, case com uma mulher e
gere um filho. Quero pôr fim a isto. Quero ir para casa,
senhores, e chorar pelo meu esposo.
O salão ficou muito silencioso quando Catelyn parou de
falar.
- Paz - disse o tio Brynden. - A paz é doce, minha
senhora... mas em que termos? De nada serve forjar um
arado a partir de uma espada se for necessário forjar de
novo a espada no dia seguinte.
- Para que morreram Torrhen e o meu Eddard, se tiver
de regressar a Karhold sem nada a não ser os seus ossos?
- perguntou Rickard Karstark.
- Sim - disse Lorde Bracken, - Gregor Clegane arrasou
meus campos, massacrou meu povo e transformou
Barreira de Pedra em uma ruína fumegante. Deverei
agora dobrar o joelho àqueles que lhe deram as ordens?
Para que lutamos, se pusermos tudo como era antes?
Lorde Blackwood concordou, para surpresa e desânimo
de Catelyn.
- E se fizéssemos a paz com o Rei Joífrey, não seríamos
então traidores para o Rei Renly? E se o veado vencer o
leão, em que situação ficaremos?
- Seja o que for que decidirem, nunca chamarei um
Lannister de rei - declarou Marq Piper.
- Nem eu! - gritou o pequeno Derry. - Nunca o farei!
De novo começaram os gritos. Catelyn sentou-se,
desesperada. Estivera tão perto, pensou. Tinham quase
escutado, quase,., mas o momento passara. Não haveria
paz, não haveria possibilidade de sarar, não haveria
segurança. Olhou para o filho, observou-o enquanto
escutava o debate dos senhores, de sobrancelha franzida,
perturbado, mas casado com a sua guerra. Tinha
prometido desposar uma filha de Walder Frey, mas
agora Catelyn via claramente a sua esposa: a espada que
pousara na mesa.
Catelyn estava pensando nas filhas, perguntando-se se
alguma vez voltaria a vê-las, quando Grande-Jon se pôs
em pé de um salto, - senhores! - gritou, fazendo a voz
reverberar nas traves. - Eis o que eu digo a esses dois
reis! - cuspiu. - Renly Baratheon não é nada para mim, e
Stannis também não. Por que haveriam de governar a
mim e aos meus de uma cadeira florida qualquer em
Jardim de Cima ou Dorne? Que sabem eles da Muralha
ou da Mata de Lobos, ou das sepulturas dos Primeiros
Homens? Até os seus deuses estão errados. Que os
Outros levem também os Lannister, já tive deles mais do
que a minha conta - esticou a mão atrás do ombro e
puxou a sua imensa espada longa de duas mãos. - Por
que não havemos de nos governar de novo a nós
próprios? Foi com os dragões que casamos, e os dragões
estão todos mortos! - apontou com a lâmina para Robb. -
Está ali o único rei perante o qual pretendo vergar o
meu joelho, senhores - trovejou. - O Rei do Norte!
